Impressões: Morte Súbita – J.K.Rowling

J.K.Rowling com seu novo livro: Morte Súbita!

Depois de cinco anos desde que Harry Potter terminou, na altura de agosto de 2012, J.K.ROWLING quebrou seu silêncio em relação ao que estava por vir. Densa é a sua visão sobre os conflitos humanos, ainda que a “inocente” metáfora do mundo bruxo para falar de questões mais inóspitas, tenha sido por tanto tempo sua marca registrada.

No original “The Casual Vacancy” (“Morte Súbita”) isso não é o que acontece: Não temos bruxos ou bruxas, não presenciamos tanta bondade e proteção, não temos um lugar especial nos aguardando e que nos faz sentir bem vindos:  casas são bagunçadas, pouco acessíveis, adolescentes estão expostos aos mais variados e corriqueiros problemas da idade, disseminando portanto a fraqueza que é reflexo da ignorância de adultos muito mal preparados. Uma clínica focada em dependentes de álcool e outras drogas é motivo constante de críticas do conselho da cidade, que é a grande protagonista da história, talvez, situando o mais saudoso leitor à visão de que Hogwarts também já foi um lugar para enaltecer.

Barry Fairbrother é um importante “Político” que cuida do mediano e conservador condado de pagford. Sua responsabilidade com todas as questão é visível, causando através de seu compromisso e bons sentimentos, inveja em alguns e forte admiração e respeito em outros. J.K. utiliza a figura popular (entretanto, jamais perfeita) de um homem comum, preocupado com a jovem e bem desenvolvida personagem Krystal Weedon – e tais preocupações custaram-lhe a vida com um aneurisma. Sua esposa e filhos ficam desamparados logo no primeiro capítulo e autora não deixa qualquer tipo de espaço para sentimentalismo, suporte ou sensibilidade. A crueldade e o ódio são dois pontos essenciais em “Morte Súbita” , tornando a ideia de “vacância” ou espaço que precisa ser ocupado uma constatação primorosa do vazio existencial e da infelicidade predominantes à cada personagem.

É muito interessante visitar o humor e a acidez de J.K.Rowling outras vezes ao longo das quase 502 páginas. Eu que caminho em uma grande correria, dividindo trabalho e perspectivas artísticas, me surpreendi por ter conseguido terminar tão rápido seu novo livro e posso atestar que sua visão e dedicação enquanto autora rendeu-lhe uma direção muito mais ousada, já que preferiu sair do lugar comum com uma única obra fechada, muito bem desenvolvida em seus conflitos, além de colocá-la definitivamente entre as grandes autoras dessa nova década dos anos 2000.

Morte Súbita: Grande Livro!

PERSONAGENS

Não há como não associar a quantidade de personagens deste livro a mesma quantidade da série Harry Potter. Por outro lado, se na série do Bruxo, temíamos a morte daqueles mais carismáticos, J.K.Rowling não poupa ninguém em sua nova visão fictícia. Pessoas usam drogas, sim e isso é real. Adolescentes sofrem violência doméstica e sexual, sim, isso é real. Aos olhos de uma perspectiva mais simplória, seria resolvido com queixas ou perdão. O perdão até faz parte de um dos principais enredos, focado no garoto Andrew, por outro lado, é possível notar que o rancor é a principal motivação para que o silêncio e a resignação sejam o modo de vida mais acessível. Numa vizinhança cheia de peculiaridades, a fofoca, as intrigas, o desejo de uma vizinha pelo marido de outra, e a agressão do filho contra pais que não mereciam, tornam “Morte Súbita” uma obra muito relevante, abordando dentro destas pequenas fraquezas, questões mais sérias como preconceito racial e a vislumbrada e pouco tolerável classe média britânica – que obviamente não é uma regra, mas vindo de J.K.Rowling que sempre evidenciou a diferença entre o que é ser “um bruxo de sangue puro” ou um mero “trouxa”,  era esperado ser visto, já que seu país e histórico pessoal clamam para criticar essa terrível questão.

A única coisa da qual senti realmente falta neste novo livro, foi o desenvolvimento de algumas personagens e maior tempo nas questões de outros: o leitor perceberá que pela quantidade de tramas, naturalmente, as questões mais relevantes sobressaem sem maiores enrolações ou problemas.  Morte Súbita é um livro que recomendo, é um novo passo da J.K.Rowling rumo à maturidade de estilo e a consagração de uma autora que não mais precisa provar ou escrever, mas que por amor e dedicação ao seu público, decidiu ignorar o que já conquistou admitindo que com tal desafio, fez um bom trabalho!

Recomendo!

“Morte Súbita” (“The Casual Vacancy”)
Editora: Nova Fronteira.
Preço, 39,90 (www.submarino.com.br)

Impressões, Nota: 8,5.

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