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Impressões

Qualquer coisa que nos cause uma impressão é algo que fica, pra sempre, na memória. Tudo bem. Eu posso explicar melhor, mas como isso é algo que eu inventei e defini, não sei se ficará completamente esclarecido, tendo em vista o tanto de água que movem as pás dos meus moinhos, caro leitor, você não deve me censurar por aqui me desculpar, antecipadamente, pelas loucuras que vão ao meu pensamento, se eu o faço é para poupar-lhe paciência, coisa que em mim, geralmente falta muito. Mas vamos lá… Impressões são sentimentos inesperados, que surgem em determinada situação, e que você não consegue definir na hora sobre o que é ou porque sente, no entanto, será algo que você sempre lembrará. É comum que as pessoas confundam isso com “amor à primeira vista”, mas não é esse o caso. Na verdade as pessoas confundem muita coisa com amor, e se eu for ficar aqui escrevendo sobre isso, entro por outro tema e esqueço sobre do que vim escrever. E eu, realmente, gostaria de falar sobre as impressões.

É comum que isto de impressão esteja associado à imagem. “A primeira impressão é a que fica.” Não estou falando disso também. Essa urgência toda em definir alguém pela primeira impressão é uma coisa que todo mundo faz numa tentativa desesperada de conhecer o outro rápido. Todo mundo tem pressa e assuntos mais importantes pra resolver, conhecer leva tempo e tempo é dinheiro e eu preciso fazer muito, agora, já! E o desespero faz sua apresentação. Assim, permanece a historinha da primeira impressão ser a única e verdadeira. Vamos generalizar pra facilitar o entendimento das coisas, mas as pessoas esquecem que as coisas não são fáceis de entender e que ao menos que você ponha seus miolos lá por um tempo, nenhuma das suas questões serão resolvidas de maneira satisfatória.

Exemplificando: Eu lembro até hoje do que eu senti quando eu vi Freddie Mercury pela primeira vez. Eu tava na mesa com a minha mãe e tava passando o clipe da música “I Want Break Free”, eu estava prestes a mudar de canal quando minha mãe disse: “Deixa aí, a gente cantava essa música no meu curso de inglês”. Tinha alguma coisa na voz, um tom diferente, que fez com que eu quisesse assistir ao clipe também. Só que, eu pequena, achei a aparência do vídeo antiga, e pensava: “Cara, nada de bom, pode vim disso, isso é muito velho.” Até que Freddie Mercury entrou na sala, de sapato de salto fino, meia-calça preta, saia de couro, blusinha rosa e bigode e deu uma piscadinha pra mim. E eu: =O. Eu achei que aquele homem podia fazer qualquer coisa. Ele tava fantasiado de Drag Queen de cabelinho Channel, e, ainda assim, era um dos homens mais másculos que já tinha visto. Eu me lembro disso até hoje porque isso me causou uma impressão, agora deu pra entender?

Todo mundo tem impressões guardadas consigo mesmo, às vezes, por não ter de sobra o maldito tempo, esquecessem-se de compartilhar com os seus. E quantas coisas legais e interessantes deixam de conversar os amigos, os familiares, os namorados, os vizinhos… Algumas impressões são ruins. Mas acredito que essas precisam ser lembradas para que não possamos errar de novo. E elas precisam ficar lá ao lado das boas impressões, para que possamos saber quão boa as impressões boas o foram. E outras permanecem, ainda que não tenham acontecido recentemente. Mas permanecem porque foram fortes e porque você as mantêm sem nem saber por quê. Às vezes, essas impressões nos foram transmitidas por um olhar, às vezes, por um sorriso, ou às vezes pelo Freddie Mercury travestido. Às vezes é um toque, uma palavra, um cheiro, uma música, uma história contada de um jeito especial, ou uma mão no ombro quando você se desfaz em prantos, ou uma maneira especial de ficar parado em pé… E são dessas coisas que nós nos lembramos, que nos mantemos e que nos passam despercebidas na maioria das vezes.
As impressões nos sustentam, e na maioria das vezes, estamos muito apressados pela leitura superficial das coisas pra notar quando uma está acontecendo. Ainda que seja uma agora. Nesse exato momento.

*Anna Paris é escritora, formada em Letras pela Fundação de Ensino Superior de Olinda – PE. Quando bate na telha, vai pra Irlanda passar umas férias, adora maratonas de Harry Potter e escreve semanalmente este Texto Viajante!

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Impressões: Morte Súbita – J.K.Rowling

J.K.Rowling com seu novo livro: Morte Súbita!

Depois de cinco anos desde que Harry Potter terminou, na altura de agosto de 2012, J.K.ROWLING quebrou seu silêncio em relação ao que estava por vir. Densa é a sua visão sobre os conflitos humanos, ainda que a “inocente” metáfora do mundo bruxo para falar de questões mais inóspitas, tenha sido por tanto tempo sua marca registrada.

No original “The Casual Vacancy” (“Morte Súbita”) isso não é o que acontece: Não temos bruxos ou bruxas, não presenciamos tanta bondade e proteção, não temos um lugar especial nos aguardando e que nos faz sentir bem vindos:  casas são bagunçadas, pouco acessíveis, adolescentes estão expostos aos mais variados e corriqueiros problemas da idade, disseminando portanto a fraqueza que é reflexo da ignorância de adultos muito mal preparados. Uma clínica focada em dependentes de álcool e outras drogas é motivo constante de críticas do conselho da cidade, que é a grande protagonista da história, talvez, situando o mais saudoso leitor à visão de que Hogwarts também já foi um lugar para enaltecer.

Barry Fairbrother é um importante “Político” que cuida do mediano e conservador condado de pagford. Sua responsabilidade com todas as questão é visível, causando através de seu compromisso e bons sentimentos, inveja em alguns e forte admiração e respeito em outros. J.K. utiliza a figura popular (entretanto, jamais perfeita) de um homem comum, preocupado com a jovem e bem desenvolvida personagem Krystal Weedon – e tais preocupações custaram-lhe a vida com um aneurisma. Sua esposa e filhos ficam desamparados logo no primeiro capítulo e autora não deixa qualquer tipo de espaço para sentimentalismo, suporte ou sensibilidade. A crueldade e o ódio são dois pontos essenciais em “Morte Súbita” , tornando a ideia de “vacância” ou espaço que precisa ser ocupado uma constatação primorosa do vazio existencial e da infelicidade predominantes à cada personagem.

É muito interessante visitar o humor e a acidez de J.K.Rowling outras vezes ao longo das quase 502 páginas. Eu que caminho em uma grande correria, dividindo trabalho e perspectivas artísticas, me surpreendi por ter conseguido terminar tão rápido seu novo livro e posso atestar que sua visão e dedicação enquanto autora rendeu-lhe uma direção muito mais ousada, já que preferiu sair do lugar comum com uma única obra fechada, muito bem desenvolvida em seus conflitos, além de colocá-la definitivamente entre as grandes autoras dessa nova década dos anos 2000.

Morte Súbita: Grande Livro!

PERSONAGENS

Não há como não associar a quantidade de personagens deste livro a mesma quantidade da série Harry Potter. Por outro lado, se na série do Bruxo, temíamos a morte daqueles mais carismáticos, J.K.Rowling não poupa ninguém em sua nova visão fictícia. Pessoas usam drogas, sim e isso é real. Adolescentes sofrem violência doméstica e sexual, sim, isso é real. Aos olhos de uma perspectiva mais simplória, seria resolvido com queixas ou perdão. O perdão até faz parte de um dos principais enredos, focado no garoto Andrew, por outro lado, é possível notar que o rancor é a principal motivação para que o silêncio e a resignação sejam o modo de vida mais acessível. Numa vizinhança cheia de peculiaridades, a fofoca, as intrigas, o desejo de uma vizinha pelo marido de outra, e a agressão do filho contra pais que não mereciam, tornam “Morte Súbita” uma obra muito relevante, abordando dentro destas pequenas fraquezas, questões mais sérias como preconceito racial e a vislumbrada e pouco tolerável classe média britânica – que obviamente não é uma regra, mas vindo de J.K.Rowling que sempre evidenciou a diferença entre o que é ser “um bruxo de sangue puro” ou um mero “trouxa”,  era esperado ser visto, já que seu país e histórico pessoal clamam para criticar essa terrível questão.

A única coisa da qual senti realmente falta neste novo livro, foi o desenvolvimento de algumas personagens e maior tempo nas questões de outros: o leitor perceberá que pela quantidade de tramas, naturalmente, as questões mais relevantes sobressaem sem maiores enrolações ou problemas.  Morte Súbita é um livro que recomendo, é um novo passo da J.K.Rowling rumo à maturidade de estilo e a consagração de uma autora que não mais precisa provar ou escrever, mas que por amor e dedicação ao seu público, decidiu ignorar o que já conquistou admitindo que com tal desafio, fez um bom trabalho!

Recomendo!

“Morte Súbita” (“The Casual Vacancy”)
Editora: Nova Fronteira.
Preço, 39,90 (www.submarino.com.br)

Impressões, Nota: 8,5.

Impressões – Grimes

Olá leitores e leitoras, tudo bem? Na coluna impressões, vocês poderão conhecer um pouco da cantora Grimes, que é sem dúvida a moça na foto acima (rs). Grimes está no patamar das cantoras que perpetua uma atraente estranheza vocal (como Kate Bush começou nos anos 80), além e pelos imensos ecos atmosféricos de suas trilhas e principalmente, pela capacidade de ter se tornado uma figura conhecida. Experimentalismo e criatividade são duas chaves presentes em suas canções.

Mercadologicamente ela é um desafio pois sua proposta é basicamente uma versão da “Björk” mais juvenil. Entretanto, ao contrário da veterana, com seu mais recente álbum, aproximou-se do público de maneira incisiva com seu já considerado hit “Oblivion”.  Se em “Vanessa” sua aparência remetia aos filmes do Tim Burton, com o contrato recém assinado sofreu modificações visíveis, mas jamais sem abandonar seu estilo soturno e porque não dizer misterioso. Se Björk no início dos anos 90 causou um estrondoso barulho pela maneira impressionante com a qual misturava ritmos diversos e que muitos julgavam “improvável” em termos de combinação, Grimes pode ser fruto dessa ousadia aparecendo no cenário POP atual como uma espécie de “Coringa”: não é o que se chama por aí de “Diva POP”, mas também não deixa de ser uma atraente recém formada celebridade.

Ao lado de iamamiwhoami (famosa por suas músicas sem “títulos” comuns e videos “surrealistas”) Claire Boucher – seu nome oficial – calibra a música pop com sonoridades que fogem da mesmice bate estaca que pode assombrar os ouvidos mais sensíveis. Nascida no Canadá, abriu a turnê 2011 da cantora Lykke Li em várias e bem sucedidas apresentações que a projetaram internacionalmente. Divulga seu mais recente Álbum “Visions” que pode ser definido (assim como seu título) como metafísico e bastante agradável.  A doçura e em certa medida infantil voz da cantora é o grande trufo de sua perspectiva artística, ao mesmo tempo que parece uma provocação: de maneira generalista, efeitos vocais são usados exaustivamente na música pop tornando praticamente impossível saber quem está cantado, no caso de Grimes, é possível entender a expressão de uma ideia bastante criativa a partir de seus sons e camadas melódicas.

Definir com argumentos muito diretos não faz jus ou tampouco respeita o trabalho que essa jovem e multi-instrumentista de 23 anos tem executado. Seu álbum está entre um dos melhores desse semestre apesar da já citada estranheza – o que é bom. A sensação de escapismo (mas jamais vulgar) também pode ser uma das razões pela procura e pelo interesse que seus fãs já entenderam como estilo da cantora. Levando em consideração a repetição de provocações desmedidas no cenário musical – de cantoras – Grimes está acima de qualquer discussão que a coloque no meio das já tradicionais “princesinhas” POP que surgiram na tentativa de superar o legado (imbatível) que Madonna ainda sustenta. Se boa parte das cantoras tentam parecer como a veterana do POP, em alguma bizarra comparação, Grimes é tal qual o Ray of Light: sereno, elegante e artisticamente compromissada com o que diz.

Coluna – Impressões – 8,5

Impressões – MDNA!

A Rainha do Pop voltou! Não, não está de volta, nem vou começar o texto dessa forma porque é a coisa mais previsível que a maior parte dos sites nacionais e internacionais, blogs e outros meios de discutir um tema (neste caso o novo disco da Madonna), costumam fazer. Além de tudo, Madonna nunca esteve ausente da grande mídia, seja promovendo sua marca Material Girl em 2011 ou seu filme também no mesmo ano, “W.E.”.

MDNA é o décimo segundo álbum de Madonna que começou sua carreira na década de 80. Se até 2006 ela não estava bem com o conceito “Material Girl” (título da sua famosa música), principalmente pelo clima blasé e não menos poderoso da fase Confessions, agora ela parece abraçar cada etapa que a consagrou com o seu disco mais fragmentado, porém, de momentos extremamente positivos, em boa forma e com leves repetições já vistas em sua carreira. Não seria nada estranho perceber que Madonna correu grandes riscos no álbum, começando por “Girl Gone Wild”, faixa que abre o disco com uma introdução que remete ao Álbum Like a Prayer na canção “Act of Contrition”, entretanto, como apontam as opiniões mais “fanáticas”, esta canção é prato cheio para rádios que tocam hits mais recentes de cantoras que não irão durar trinta anos, como a rainha do POP desafia qualquer um a fazer. Na segunda faixa, temos o grande ponto do álbum em termos de provocação e de intensidade: “Gang Bang”. Co-produção de William Orbit (de Ray of Light – Álbum, 1998), Madonna soa assassina e muito mais profunda se comparada aos sintetizadores simplórios de “GGW”, além de ter convidado para direção do video deste single, na conferência do Álbum promovida através de um canal no youtube e também via Facebook, o ótimo diretor de cinema, Quentin Tarantino. O grande risco da primeira canção, portanto, é justamente transformá-la em uma garota: mas o terreno planejado por ela é sério e a própria tem permissão para fazer isso – além de todo problema envolvendo o site pornográfico Girls Gone Wild que criticou a cantora por ter utilizado essa expressão quando batizou a canção.

Diferente de diversos grupos como Spice Girls ou Backstreet Boys, ou de cantoras como Lady Gaga, que sumiu dos holofotes pós explosão do seu Disco Fame Monster, Madonna continua reciclando sua carreira e seu foco de atuação e lançamento. Se em Born This Way, Gaga prometera lançar o álbum da década (caindo em contradição levando em conta a pressão feita sob o mesmo discurso que destruiu Christina Aguilera e Britney Spears – de que seria necessário “Uma nova Madonna”), mas com videos mal conduzidos, brigas com a gravadora e um ego que parece ter ficado maior que o nariz da cantora, perdeu o foco que a levou a tal grande e merecida fama, explorada em seu primeiro disco – suas interessantes reciclagens e até futurísticas ideias, deram lugar a uma discursiva garota – que mesmo vendendo muito – soa hoje pretensiosa tornando-se vítima do que ganhou, tendo agora que se focar apenas na turnê, além de amargar a vitória da Cantora Adele (uma ressaca pós Amy Winehouse), que abriga um potencial vocal incrível e digno de ter levado todos os prêmios Grammy deste ano.

Com uma excelente apresentação no Superbowl (onde Lançou oficialmente o divertido single Give me All your Luvin’ – com participações de M.I.A. – também em B’day Song e Nick Minaj novamente em I dont Give A – lembrando bastante os elementos que Michael Jackson usou em seu álbum Bad, com forte influência do rock e r&b, muito bem executadas pelo produtor Martin Solveig) Madonna deu o troco que todos esperavam: a maior audiência de um intervalo na história do evento norte-americano, além de computar números maiores que as próprias partidas em toda temporada, contrariando a opinião daqueles que dizem que o espírito da cantora envelheceu  em relação ao boom frenético pós Gaga. É importante ressaltar que são poucos que conseguem chegar aos 53 anos com tamanha relevância, sendo mais enfático, na música POP, não existe ninguém tão vivo e tão ousado como essa cantora, sendo um caso raro de mão de ferro no que diz respeito a sua carreira. Já faz algum tempo que Number one deixou de ser seu propósito essencial, entretanto, ao contrário de alcançar o topo das paradas com apenas uma canção, na pré-venda da Itunes ela atingiu o primeiro lugar em cerca de 50 países, o que é impressionante levando em conta seu último álbum, o regular Hard Candy de 2008 e principalmente, a divulgação produzida apenas na internet e em poucos canais de tv: com entrevistas modestas e sem chamar tanta atenção para si, Madonna mostra que nem tudo requer escândalo ou verborragia e principalmente, a escolha acertada do Superbowl provou que pouco é o suficiente quando se tem um bom álbum em mãos e a já tradicional visão estratégica da Rainha do POP.

Polêmicas do novo álbum: Sexo, violência,  drogas , relacionamentos falidos e nudez!

“Girl Gone Wild” pode não ser a melhor música do disco, tampouco a melhor abertura, mas abre MDNA com bastante energia e não deixa ninguém paralisado quando o assunto é dançar sem preocupações ou com descrições mais profundas. Com participação – no videoclipe – do grupo ucraniano de dança e com alguns singles,  Kazaky,  que utiliza a androginia e um visual preto e branco bastante peculiar: os movimentos não remetem aos passos humanos, numa espécie de mistura de músculos alienígenas e jogos de luzes que podem carregar simbologias eróticas e novamente, Madonna utiliza o que a consagrou: a iconografia própria dos anos 90, com muito couro, nudez, alusões religiosas e mensagens que questionam a moral cristã.

Outro ponto bastante controverso do video, é a cena de masturbação de um dos modelos e a nudez envolvendo este mesmo indivíduo, o que foi suficiente para que o youtube solicitasse a mudança da versão do video no canal Vevo e da própria cantora. O Dj Deadmau5, mais conhecido como “o cara com capacete do Mickey dark”, criticou a postura da cantora num evento ocorrido recentemente no qual ela fez um trocadilho utilizando o termo “MDMA” que é uma outra nomenclatura para designar a droga do amor, o ecstasy. Na música I’m ADDICTED, também uma das melhores do disco MDNA, é possível sentir o escapismo que a cantora emprega e que se relaciona a sensação descrita pelos usuários desta droga: definitivamente, utilizando uma gíria para o título do disco, Madonna sintoniza-se outra vez com as pistas de dança (remetendo inclusive o sentimento da excepcional Get Together do Álbum Confessions on a Dancefloor, 2005) – pela pressa que o nome é dito – e principalmente com o universo virtual, já que o título remete a uma hashtag prestes a ser utilizada. Outro ponto excelente do novo álbum é a arte de capa assinada pela dupla famosa Mert & Marcus, conhecidos por campanhas publicitárias e voltadas ao mercado da moda e pela terceira vez em um disco (Confessions, Hard Candy), do Diretor Criativo, Giovanni Bianco, que aplicou essa camada “canelada” que se assemelha ao clássico estilo de janela de cozinha (rs).

Impressões Finais. 

MDNA é conceitualmente e em termos de produção um banho no último disco que contratualmente Madonna produziu na Warner: Hard Candy. Se ouvirmos com calma, “seu novo DNA” como a própria definiu em recente entrevista, soa uma extensão do Álbum Confessions (principalmente), Music, American Life e do próprio Ray of Light, com o qual ganhou vários prêmios.  Entretanto, seu recente disco, emprega um clima muito mais soturno e urbano, enquanto o Confessions (produzido pelo excelente Stuart Price) era bastante elegante na sonoridade e vanguardista em suas ideias e na conjunção “non-stop”, mesmo soando bastante “Street“, é um dos grandes momentos da carreira da Madonna, enquanto MDNA é um bom recomeço, fragmentando faixa a faixa a ideia de que ela estava usando o melhor de si. Hard Candy não pode ser completamente desmerecido se conhecermos seu contexto e levando em conta seus ótimos momentos – “Beat Goes On”, “Give It 2 Me”, “Candy Shop”, “Milles Away”, “4 Minutes”, “Heartbeat” e “She’s Not Me” – que parece uma prévia de “Some Girls”: o álbum seria uma metáfora feminista, teria o nome original de “Black Madonna” utilizando simbologias  resultantes do imaginário feminino,  como é possível notar na faixa “Animal”, hoje considerada Bside, sendo infelizmente um grande desperdício em termos de qualidade e estando acima de faixas como “Incredible” que se estende de forma repetitiva assim como “Spanish Lesson” soa bastante preguiçosa e com uma ideia bastante oportunista focada obviamente na passagem da cantora pela América do Sul. Como a crítica é baseada em seu mais recente álbum, julgo necessária essa comparação, pois, MDNA é muito superior na sonoridade, nas experimentações de Love Spent com um banjo arrojado no melhor estilo melody de Stevie B dos anos 80 e esta mesma canção soa como uma segunda, assim que a descrição do “amor” na letra, vai se tornando frágil e bastante obscura: méritos típicos de William Orbit e por essa razão Madonna soa muito diferente do que se produz no mercado. Some Girls é extremamente jovem e utiliza sintetizadores vocais que podem confundir os mais desatentos, podendo ser entendido como uma cutucada na cantora Lady Gaga, já que se assemelha bastante com a proposta robótica e com agudos “gélidos” no seguinte trecho:

“Wrap your arms around my neck
It’s time to steal some hugs today
If you wanna play this game with me
I AM not like all the rest
Some girls are second best
Put your loving to the test, you’ll see

Some girls are not like me
I never wanna be like some girls
Some girls are just for free
I never wanna be like some girls”

http://www.vagalume.com.br/madonna/some-girls.html#ixzz1rLO3bxs4

Entretanto, a letra é muito madura e é característica de Madonna, coloca-se em perspectiva/panorama presente, justamente porque ainda que suavemente e de maneira irônica (como é possível também notar o retrato do atual pop em “Give Me All Your Luvin'”), não tem medo de confrontar os artistas que hoje fazem sucesso. “Falling Free” e a já conhecida e premiada faixa “Masterpiece” (Ambas co-produzidas por Orbit), são parte do que acredito que Madonna fará com mais frequência daqui pra frente: baladas românticas. E nesse sentido, ela consegue ser explosiva, ainda que em ritmos muito delicados e foge de qualquer pieguice natural de alguns cantores que exploram tal perspectiva, como também é possível notar em “I Fucked Up”. O único ponto que eu julgo um pouco “Obsoleto” apesar de ser uma boa faixa e muitos podem discordar do que vou dizer é “I’m A Sinner”: essa faixa parece uma mistura do Ray of Light (Álbum) com “Beautiful Stranger”, do mesmo período (1998-2000), o que parece ser uma tacada bastante previsível e um lugar comum e certo de que resultaria em sucesso na perspectiva da cantora. “Turn up the Radio“, produzida pelo divertido Solveig, tinha tudo para ser um carro chefe com garantia de número um em várias listas de revistas que calcularão faixas que serão Hits, por outro lado, Madonna parece estar explorando justamente o inusitado nessa etapa, atraindo a completa atenção para o Álbum e não para os singles mais poderosos que lá estão inseridos, com pontuais bate-papos com os fãs via Twitter, sem “fidelizá-lo” como terreno seu – Olá Lady Gaga – tanto quanto tem divulgado vários videos em seu canal do youtube com bastidores da produção da turnê.

“Superstar” e “Beautiful Killer” soam muito radiofônicas e de fácil assimilação, sendo a primeira uma bela forma de mostrar a união que Madonna tem com a filha Lola e como ambas são sintonizadas, inclusive, artisticamente. Segundo Madge, “Beautiful Killer” é uma homenagem ao ator Alain Delon, do qual, ao lado de Marlon Brando e James Dean, completa uma espécie de “olimpo” de atores dos quais Madonna tem grande admiração e faz o possível para citar enquanto referência. Finalmente, a última faixa “Best Friend” não é o melhor exemplo de sonoridade, sendo bastante experimental e um pouco “oca”, entretanto, a letra é muito passional e bastante sincera, o que talvez – caso seja executada ao vivo – pode ser reconsiderado com outros arranjos na nova turnê que tem o título de “MDNA WORLD TOUR”, prevista para ter início dia 29 de Maio em Israel.  

Como ressaltado, não é o que classifico como “gigantesco momento” em sua carreira, mas este recente lançamento segundo certificações especializadas  já passou das 700 mil cópias vendidas em uma semana, sem contar as versões que foram vendidas junto com alguns ingressos para os shows. Na minha lista de grandes álbuns da cantora, estão Confessions on a Dancefloor, Ray of Light, Erotica, American Life e Like a Prayer: nestes discos, Madonna faz jus ao título de rainha do POP e se em Hard Candy, ela fez um movimento de termino contratual, em sua vida pessoal (com o fim do casamente de 8 anos com Guy Ritchie) e finalmente, a sua saída da Warner, em MDNA, ela assina – com bastante êxito – com a Live Nation, Universal e Interscope, o primeiro grande passo da sua nova re-invenção. Como impressão e talvez indício do tempo no qual vivemos nesta década, cada vez mais, ela aparecerá protegida por camadas estrategicamente bem pensadas para mante-la bonita – já que é natural da cantora desafiar convenções desse gênero – manter-se na mídia (previsivelmente) e principalmente, consistente. Fica provada uma incrível sagacidade, uma ótima e divertida visita aos pontos mais clássicos de sua carreira e uma elegante exibição do seu gene musical.

Impressões: Rica em Detalhes – Nota: 7,5

Impressões – The Walking Dead!

Atenção: Não quero atrapalhar a diversão de ninguém mas se não acompanhou todos os episódios, não leia, contem Spoiler. Se não se importa e continua mantendo suas impressões sobre a série, ainda que já esteja sabendo de tudo que vai acontecer? Bem vindos!

Ainda sentindo o clima da segunda temporada, The Walking Dead se prova um dos melhores programas de TV exibidos hoje. Com uma curta primeira temporada (6 episódios), entretanto, bastante intrigante, nos mostrou Rick, um policial que acorda em um hospital, na melhor homenagem ao filme Extermínio de Danny Boyle, outra pérola do gênero “survivor”, enquanto tudo ao seu redor era destruído por uma infestação de Zumbis.

Se na primeira temporada tivemos um ritmo frenético em busca de respostas para solucionar o misterioso surgimento da infestação zumbi, na segunda, além de sairmos do foco urbano que a trama possuía, Rick e seu enorme grupo, partiram até uma fazenda que parecia uma terra prometida em tempos cinzentos e após a grande explosão do centro médico no qual um grande segredo foi contado a Rick. Entretanto, nada é sólido e duradouro em Walking Dead: Diferente do que muitas pessoas costumavam apontar, essa temporada foi vagarosa, entretanto, preocupada com a responsabilidade de desenvolver Dale, Daryl e Andrea, além de exibir um interessante arco com Sophia, a personagem que desaparece durante parte a primeira metade. Se Dale e Andrea tinham um conflito recém assumido entre tensão amorosa e paternalismo por parte do bom senhor, Shane, entrou em conflito com seus princípios já que tivera um caso amoroso com Lori: a verdade da gravidez da senhorita problema da série culminou numa das ações mais tensas nas duas temporadas e é um momento de transição daquele Rick bonachão que estávamos acostumados.  Além da morte de Otis, Shane já desenvolveu a primeira linha ou novo plano que a série nos entregou durante esta temporada: Nada aqui é “justificável”, tudo o que se faz é para sobreviver – Conviver em harmonia é uma convenção que não abraça velhos, apenas os maios Aptos.

Outro primor nessa temporada foi a caça de Daryl a Sophia e sua relação com o grupo, já que se mostrou o personagem mais neutro, entretanto, repleto de simpatia quando foi necessário consolar a mulher que perdera a sua filha e principalmente, a mulher que precisava de cuidados:  Carol.

The Walking Dead nunca será focada nos zumbis mas sim em seus personagens e seus conflitos no qual a justiça e a lei sucumbiram: é uma terra de ninguém e fica explícito ao final da temporada no discurso de Rick que todos carregam em seu sangue ou em seu cérebro a misteriosa praga zumbi: não importa se você é mordido ou não, todos já são vítimas desse terrível apocalipse. Tal revelação só culmina em outra verdade: Já somos prisioneiros desse terrível mal (em contra-cena à grande Prisão presidida pelo Governador) ou apenas ressaltado pelo recém destruído celeiro, simbolo da “escravidão” de alguns zumbis.

Ressalvas e Polêmicas. 

Muito se especulou sobre a morte de Shane e como poderíamos conferir isso nos episódios da série: os produtores mantiveram a situação muito semelhante aos quadrinhos, mas como a linha de certos fatos seguiu outra perspectiva, Carl atirou em Shane na forma zumbi (nos quadrinhos, Shane permanecia humano), por duas razões: A primeira é que o ator é muito jovem e isso poderia comprometer seu desenvolvimento enquanto pessoa (o que não tem relação nenhuma com a série, mas sim com a preocupação com a integridade da criança por parte dos produtores) por outro lado, a clara modificação da série em relação aos quadrinhos, intrigando cada telespectador pelo fato do Shane não ter sido mordido (num conflito com Rick, acabou levando a pior e foi esfaqueado após criar uma armadilha para Rick), entretanto, já foi comentado que qualquer um é  “Errante” ou simplesmente, um morto vivo. Mora neste ponto a grande “sacada” da série em relação ao seu título.

Dale, nos deixou de coração partido pois tentou falar em justiça ao Shane e ao grupo, na tentativa de salvar Randall (personagem que revelou a existência de terríveis grupos de humanos violentos não por necessidade, mas pela falta de “moralidade” e éticas humanas – o que nesse contexto diz respeito ao ato de respeitar quem ainda é humano), o que não se cumpriu já que os argumentos deram lugar a simples e animalizada vontade de sobreviver que é necessária no universo da série, sendo confirmada portanto a sua banal morte, oriunda de uma ação muito irresponsável de Carl que sente o peso de crescer sem que escute falar em “normalidades”. Ninguém pode esperar por um lugar seguro levando em conta a grande quantidade de zumbis que são criados e que parece não ter fim: por mais que os esforços feitos sejam para salvar vidas que ainda “mantem” um pouco daquilo que conhecemos enquanto lei ou humanidade, o mundo que conhecíamos ou a tão “conturbada” civilização já foram colocadas à baixo nessa terrível atmosfera de medo e insegurança.

Ritmo da Série e Incômodo dos Impacientes. 

Quadrinhos e livros tem uma maneira de contar o enredo que é muito mais “imaginativa” e muito mais autônoma em questão de tempo e desenvolvimento, em uma série de televisão ou filme, não há como desenvolver tudo o que esperamos de uma vez só, e muitas pessoas não compreendem a razão dessa “demora” na resolução dos plots:  então qual seria a razão dos produtores assinarem contrato para várias temporadas? Se você acompanha séries, sabe claramente que nem tudo vai ser contado em um único episódio e Walking Dead distribuiu muito bem todas as emoções e o espaço de cada personagem nessa temporada (exceto T-Dog que os produtores deixaram em stand by para algo que será resolvido – espero – na terceira temporada. Acho que existe em parte o problema da falta de memória e paciência de algumas pessoas, já que a temporada começou ano passado (2011) e está terminando agora (Março de 2012). Se notarmos bem, tudo que foi exibido beneficiou as consequências já previstas por quem leu os quadrinhos e as leves alterações necessárias para uma grande revelação de nome Governador, que chegará nesta terceira temporada: Michonne, importante personagem dos quadrinhos (e uma das mais populares) já deu suas caras numa pequena ponta, prenúncio da temporada que chega, além de um leve desespero causado no orgulho e no peito daqueles que ainda conservam o amor como esperança de redenção (Glenn e Maggie).

Vislumbrando A Terceira Temporada!

Se Walking Dead tornar-se uma série de violência gratuita, focada apenas numa ação irresponsável, eu já não vou mais assistir. É justamente esses passos vagarosos como de um zumbi que transformam a série em um berço de questionamentos éticos sobre a própria vida e o nosso medo de encarar situações extremas que já não explicariam a nossa difícil existência.

A série tem muito material para ser desenvolvido, e os três episódios finais da temporada só defendem ainda mais a qualidade e superioridade desta segunda em relação a primeira: a dificuldade de algumas pessoas em perceber os detalhes e as minucias que a série já levantou já mostra que a série a cada novo episódio, seleciona com cuidado quem vai apreciar sua qualidade e seu texto, deixando para trás quem não sabe acompanhar ou se adaptar a necessidade do verbo numa série que não é de ação, mas sim de ficção e drama.

Impressões: Rica em Detalhes – Nota: 9,0.