Cisne Negro: Uma Bela Roupa Sob Fraco Discurso.

Chris Nolan, diretor da nova trilogia do Batman (“Begins”, “Dark Knight”, “Dark Knight Rises”) é por algum motivo, o tipo de diretor que consegue conciliar histórias “já criadas” com uma visão bastante autoral: perfeccionista e por sua vez, bastante coeso enquanto diretor, evita utilizar efeitos digitais superficiais em seus filmes, chegando inclusive a demolir prédios e degradar atores, como é o caso de Heath Ledger, que Graças ao mal momento em quê vivia, e a intensa atuação no Cavaleiro das Trevas, acabou falecendo de maneira muito suspeita em decorrência de uma overdose de medicamentos.  Através desse realismo, pouco a pouco Nolan despontou enquanto diretor, tendo o ótimo “O Grande Truque” sendo indicado a dois Oscar nas categorias fotografia e direção de arte,  e o ousado “A Origem”, com Leonardo Dicaprio como protagonista dessa grande roleta russa desconstruída (visual).

Essa tal intensidade vista no Batman e o tom realista, permeia uma mente que não é tão valorizada quanto a do Nolan (Graças ao Batman, Nolan hoje tem uma grande autonomia dentro da Warner, tanto para desenvolver projetos, como para escrever roteiros e produzir novas séries, como o novo Superman – Man of Steel): Responde pelo nome de Darren Aronofsky.

Darren Aronofsky arrives at the 83rd annual Academy Awards in Hollywood

Iria assumir a direção desta  “nova trilogia” do Batman (“Batman – Ano Um”, foi cogitado como nome do filme),  mas como sempre ocorre em sua carreira, sofreu cortes, foi excluído de projetos, ou perdeu boa parte dos seus orçamentos nas produções em quê esteve envolvido. Esse panorama só começou a mudar quando Cisne Negro foi anunciado como seu novo projeto, pós (o intenso, verdadeiramente) filme “O Lutador“, esse sim digno de Oscar de Melhor filme e de melhor ator para Mickey Rourke.

Com Natalie Portman no papel de Nina, o filme tem quatro elementos especiais da carreira do Darren: A belíssima fotografia, trilha sonora apurada de Clint Mansell, seu parceiro de longa data que produziu a também excelente trilha do filme “Moon” de Ducan Jones, mas conhecido como filho de David Bowie, o figurino inocente que é medido corretamente na personagem da Natalie e por sua vez, a própria atuação que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz.

Eu torci bastante por este filme no Oscar, não por gostar do resultado final, se comparado com seus quatro filmes anteriores (“Pi”, “Réquiem Para Um Sonho”, “A Fonte da Vida” e Finalmente, “O Lutador”), mas, por ser um movimento estratégico do Darren Aronofsky com relação a sua popularidade: ele, sabiamente, utilizou recursos “simples” para atrair o grande público ao cinema: Black Swan veste a roupa e as proteções clássicas do Ballet como referência pesada, garantindo uma impressão breve de “arte”, entretanto, é previsível justamente por que utiliza os mesmo artifícios de “Pi”, inclusive, climatizações ou locações (cenas em metrô) mastigando para o público interpretações (ou cenas) que cumprem demanda (por exemplo, o fetiche homossexual da personagem, com seu beijo e transa, um deleite para o público masculino “Horny” ou para meninas que também se sentem atraídas), além das sombras que se escondem prontas para dar medo, além das várias faces que a personagem pode assumir como justificativa para uma “possível” profundidade no roteiro e na sua concepção.

Ainda que desconcertante em seu ritmo, Cisne acerta justamente pela inocência que o Ballet parece ter, mas ao mesmo tempo, é violento com toda carga emocional provocada pelos treinos e também pela mãe de Nina, que não lhe garante independência enquanto pessoa e principalmente, enquanto mulher.

Merecidamente, Portman entrega uma personagem verossímil, que enaltece uma possível “interpretação” de libertação do pássaro que atinge seu grande momento,  mas, decididamente, ainda que essa grande atriz sustente toda atenção do filme em si (como é o caso também do Heath Ledger, apesar do excelente roteiro/filme que Dark Knight é) não consigo ter a mesma impressão do filme:  Não vejo sintonia, ou tampouco tanta “cultura” na película como muitos apontam, enaltecendo “metáforas” retratadas em cenas (como diversos sustos previsíveis) e a desculpa constante do roteiro em confundir quem o assiste: isso não é sinônimo de “referencial”, mas sim, de repetição de estilo. Basta assistir qualquer filme da linha “horror psicológico” para entender esses tais sustos, trilha sonora que aumenta causando tensão, por sua vez, um forte impacto em cena.

185191955_640

“Pi”, o primeiro filme do diretor, tem um dos finais mais ousados e surpreendentes do cinema: esse sim com status merecido de referência obrigatória, precisou de lentes específicas, para dosar exatamente os tons preto e branco que o diretor gostaria de ver na tela, não os tons cinzas, como costumamos assistir em filmes da década de 30 ou 20.  A câmera trêmula (na mão), a velocidade somada à paranoia de Max Cohen, chamam atenção pela qualidade, justamente por que, da mesma forma que foi concebido, Cisne Negro também acompanha e tem perfil semelhante;  Com o diferencial de ter uma atriz já renomada, o que não quer dizer ou que garante, por sua vez, um resultado tão convincente.

BlackSwan_mirror

Ambos (filmes) apresentam em seu plot algum tipo de colapso psicológico que brinca com quem assiste, entretanto, por serem assuntos muito sérios, se diferenciam justamente na consistência real vista se destacados como filmes dramáticos: “Pi” é honesto, é violentamente cruel, é uma perseguição por números e hipóteses que confunde, não por truques de câmera que assustam, mas por se sustentar em um roteiro imprevisível, inteligente, reflexivo e ágil.  Cisne Negro foi pré-modelado para “parecer” inteligente, e é esse o grande mérito de Darren Aronofsky ao se tornar público: entregando sua película mais fácil, conquistou o público com um rosto conhecido (sua atriz), vestindo a roupa correta (o custo da produção) para os festivais e principalmente, para chegar as residências daqueles que querem seu DVD ou Blu-Ray:  é bem verdade que não posso condenar a atitude do diretor, enquanto espectador e principalmente enquanto fã, entendo que em algum ponto ele perdeu para, obviamente, como diz o ditado, poder ganhar: Mas, ainda que esse movimento necessário tenha sido concretizado, incomoda a pequena visão das pessoas ao acreditarem que o que é exibido agora, hoje, o que é recente, que chega com uma embalagem atraente, é melhor, e que irá incluir quem assiste “a um grupo”, fará de cada um mais inteligente:  neste ponto, precisamente, Cisne Negro acerta por falar do jogo de aparências, mutilações que são necessárias, somadas as nossas mentiras para que possamos conviver nesse mundo cada vez mais complexo e vaidoso, entretanto, não é com técnica que conseguimos atingir os corações e mentes preocupadas em sentir emoções diferentes e quem sabe, compreender melhor os valores, se é que existem, presentes na tal falada humanidade: Darren Aronofsky é um grande diretor, mas não “técnico” e costumo pensar que seu trabalho um dia, pode ser tão relevante quanto o de Kubrick e Tarkovsky. Seus grandes feitos na história do cinema, são representados pela incrível capacidade de fazer grandes filmes, apesar das dificuldades de produção, pela sua criatividade, e pela maneira como decidi dirigir e conceber suas obras.

blackswan_trailerthumb

Só nos resta acreditar e confiar que “Noé“, seu próximo projeto, deixará de lado essa perseguição pelo reconhecimento do público, para finalmente retomar as suas origens enquanto diretor, enaltecendo a qualidade em primeiro lugar, ainda que isso lhe custe, à curto prazo, a perda da sua “tão sonhada” visibilidade, ou como diz a sua personagem Nina, “ser completo, perfeito”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s