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Impressões

Qualquer coisa que nos cause uma impressão é algo que fica, pra sempre, na memória. Tudo bem. Eu posso explicar melhor, mas como isso é algo que eu inventei e defini, não sei se ficará completamente esclarecido, tendo em vista o tanto de água que movem as pás dos meus moinhos, caro leitor, você não deve me censurar por aqui me desculpar, antecipadamente, pelas loucuras que vão ao meu pensamento, se eu o faço é para poupar-lhe paciência, coisa que em mim, geralmente falta muito. Mas vamos lá… Impressões são sentimentos inesperados, que surgem em determinada situação, e que você não consegue definir na hora sobre o que é ou porque sente, no entanto, será algo que você sempre lembrará. É comum que as pessoas confundam isso com “amor à primeira vista”, mas não é esse o caso. Na verdade as pessoas confundem muita coisa com amor, e se eu for ficar aqui escrevendo sobre isso, entro por outro tema e esqueço sobre do que vim escrever. E eu, realmente, gostaria de falar sobre as impressões.

É comum que isto de impressão esteja associado à imagem. “A primeira impressão é a que fica.” Não estou falando disso também. Essa urgência toda em definir alguém pela primeira impressão é uma coisa que todo mundo faz numa tentativa desesperada de conhecer o outro rápido. Todo mundo tem pressa e assuntos mais importantes pra resolver, conhecer leva tempo e tempo é dinheiro e eu preciso fazer muito, agora, já! E o desespero faz sua apresentação. Assim, permanece a historinha da primeira impressão ser a única e verdadeira. Vamos generalizar pra facilitar o entendimento das coisas, mas as pessoas esquecem que as coisas não são fáceis de entender e que ao menos que você ponha seus miolos lá por um tempo, nenhuma das suas questões serão resolvidas de maneira satisfatória.

Exemplificando: Eu lembro até hoje do que eu senti quando eu vi Freddie Mercury pela primeira vez. Eu tava na mesa com a minha mãe e tava passando o clipe da música “I Want Break Free”, eu estava prestes a mudar de canal quando minha mãe disse: “Deixa aí, a gente cantava essa música no meu curso de inglês”. Tinha alguma coisa na voz, um tom diferente, que fez com que eu quisesse assistir ao clipe também. Só que, eu pequena, achei a aparência do vídeo antiga, e pensava: “Cara, nada de bom, pode vim disso, isso é muito velho.” Até que Freddie Mercury entrou na sala, de sapato de salto fino, meia-calça preta, saia de couro, blusinha rosa e bigode e deu uma piscadinha pra mim. E eu: =O. Eu achei que aquele homem podia fazer qualquer coisa. Ele tava fantasiado de Drag Queen de cabelinho Channel, e, ainda assim, era um dos homens mais másculos que já tinha visto. Eu me lembro disso até hoje porque isso me causou uma impressão, agora deu pra entender?

Todo mundo tem impressões guardadas consigo mesmo, às vezes, por não ter de sobra o maldito tempo, esquecessem-se de compartilhar com os seus. E quantas coisas legais e interessantes deixam de conversar os amigos, os familiares, os namorados, os vizinhos… Algumas impressões são ruins. Mas acredito que essas precisam ser lembradas para que não possamos errar de novo. E elas precisam ficar lá ao lado das boas impressões, para que possamos saber quão boa as impressões boas o foram. E outras permanecem, ainda que não tenham acontecido recentemente. Mas permanecem porque foram fortes e porque você as mantêm sem nem saber por quê. Às vezes, essas impressões nos foram transmitidas por um olhar, às vezes, por um sorriso, ou às vezes pelo Freddie Mercury travestido. Às vezes é um toque, uma palavra, um cheiro, uma música, uma história contada de um jeito especial, ou uma mão no ombro quando você se desfaz em prantos, ou uma maneira especial de ficar parado em pé… E são dessas coisas que nós nos lembramos, que nos mantemos e que nos passam despercebidas na maioria das vezes.
As impressões nos sustentam, e na maioria das vezes, estamos muito apressados pela leitura superficial das coisas pra notar quando uma está acontecendo. Ainda que seja uma agora. Nesse exato momento.

*Anna Paris é escritora, formada em Letras pela Fundação de Ensino Superior de Olinda – PE. Quando bate na telha, vai pra Irlanda passar umas férias, adora maratonas de Harry Potter e escreve semanalmente este Texto Viajante!

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Sobre ser o Ser

Meu maior defeito, e não sei se me aproprio corretamente do nome tendo em vista que defeitos fazem parte daquele lado da alma que não gostamos de encarar por conter verdades que dão pra controlar, talvez seja que eu sou profundo demais.

Vista as palavras daqui de cima chego à conclusão de que ser profundo ou não, não é algo que caracterize defeito. É mais como uma parte do seu corpo, uma coisa que você é porque você é. Como ter 1,75 de altura ou olhos castanhos ou dedos longos. Defeito consiste em excesso: de confiança, de seriedade, de serenidade, de medo e, no meu caso, de profundidade. Uma necessidade incontrolável de ser. Transbordando, preenchendo, afogando. Sendo alguém que se excede em pensamentos dentro de pensamentos e cada vez mais fundo, tendo a achar que qualquer um pode ser assim. Tolice minha.

Pode ser só procura do quê eu já nem sei. No entanto, saber com certeza que eu procuro já me consola porque a sabedoria de algum tempo nos ensina que quem procura acha. E ninguém se anula por isso. A bem da verdade, eu entendo isso agora e só agora. Profundidade não é pra todo mundo, alguns porque não podem e outros porque não querem mesmo. Andar na margem é mais seguro e águas escuras assustam barcos frágeis.

Sereno e reflexivo você continua, alguma coisa em você o acalma. Talvez seja entendimento, talvez conformação. Essa tendência de achar que todos são capazes de atingir determinado ponto desemboca em frustração quando percebe-se que mesmo na diferença, algumas coisas são sempre iguais.

Por Anna Paris*

*No Texto Viajante, Anna Paris relata não só suas experiências – partilhadas com sentimentos universais – mas suas dicas e perspectivas para fenômenos culturais, obras de arte e momentos efêmeros 😉 

Acompanhem-na toda semana! Até a próxima viagem 😉

Atualização!

Casemancer: A Happy Botot

Olá Leitores e Leitoras, tudo bem?

Como impressiona a passagem do tempo! Nem parece que não atualizo este blog a quase um ano, mas, estou motivado a tentar. Começando por sua nova aparência e pelas próximas abordagens. Trarei o apoio de alguns colaboradores, sobre os mais variados temas e conto com a paciência e apoio de sempre para que sejamos um sucesso!

A Coluna impressões retorna com séries que estão sendo exibidas. Diversos especiais literários serão produzidos. Posso adiantar que um dos primeiros será sobre Ficção Científica!

É com muita alegria que agora tento profissionalizar ainda mais este espaço, respeitando o tempo de vocês e tentando me dedicar com mais afinco ao que tanto me interessa!

Muito Obrigado,

Casemancer,
A Happy Robot. 

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Uma deliciosa crônica do nosso tempo é o recém-lançado livro de Bellotto pela Companhia das Letras – Por Roberta Carmona. 

A Coluna Rápida Edição, traça um breve olhar sobre livros da Literatura Nacional!

Zé Roberto e Chica vão comemorar dezoito anos de casamento, mas existe um empecilho bem palpável: o maior congestionamento já registrado no Rio de janeiro – e outro que vai muito além da horda de carros na Linha Vermelha -, o casal está em uma encruzilhada moral do seu tempo. Ele perdido de amores por uma teenager proveniente do facebook (como um homem de quarenta anos não se perturbaria por uma cyber-lolita de refinado gosto a contrastar com as frivolidades de sua idade?). E ela em um iniciado romance com um colega de trabalho onde o forte do affair ultrapassa o desajeitado e raro sexo entre o casal. Será que neste atordoante trânsito a la Cortázar – autor do Jogo da Amarelinha – eles irão resolver seus conflitos? Bellotto conduz a ágil história que poderia cair facilmente no lugar-comum com uma leveza e humor que contagia leitores da primeira à última página.

Impressões: Morte Súbita – J.K.Rowling

J.K.Rowling com seu novo livro: Morte Súbita!

Depois de cinco anos desde que Harry Potter terminou, na altura de agosto de 2012, J.K.ROWLING quebrou seu silêncio em relação ao que estava por vir. Densa é a sua visão sobre os conflitos humanos, ainda que a “inocente” metáfora do mundo bruxo para falar de questões mais inóspitas, tenha sido por tanto tempo sua marca registrada.

No original “The Casual Vacancy” (“Morte Súbita”) isso não é o que acontece: Não temos bruxos ou bruxas, não presenciamos tanta bondade e proteção, não temos um lugar especial nos aguardando e que nos faz sentir bem vindos:  casas são bagunçadas, pouco acessíveis, adolescentes estão expostos aos mais variados e corriqueiros problemas da idade, disseminando portanto a fraqueza que é reflexo da ignorância de adultos muito mal preparados. Uma clínica focada em dependentes de álcool e outras drogas é motivo constante de críticas do conselho da cidade, que é a grande protagonista da história, talvez, situando o mais saudoso leitor à visão de que Hogwarts também já foi um lugar para enaltecer.

Barry Fairbrother é um importante “Político” que cuida do mediano e conservador condado de pagford. Sua responsabilidade com todas as questão é visível, causando através de seu compromisso e bons sentimentos, inveja em alguns e forte admiração e respeito em outros. J.K. utiliza a figura popular (entretanto, jamais perfeita) de um homem comum, preocupado com a jovem e bem desenvolvida personagem Krystal Weedon – e tais preocupações custaram-lhe a vida com um aneurisma. Sua esposa e filhos ficam desamparados logo no primeiro capítulo e autora não deixa qualquer tipo de espaço para sentimentalismo, suporte ou sensibilidade. A crueldade e o ódio são dois pontos essenciais em “Morte Súbita” , tornando a ideia de “vacância” ou espaço que precisa ser ocupado uma constatação primorosa do vazio existencial e da infelicidade predominantes à cada personagem.

É muito interessante visitar o humor e a acidez de J.K.Rowling outras vezes ao longo das quase 502 páginas. Eu que caminho em uma grande correria, dividindo trabalho e perspectivas artísticas, me surpreendi por ter conseguido terminar tão rápido seu novo livro e posso atestar que sua visão e dedicação enquanto autora rendeu-lhe uma direção muito mais ousada, já que preferiu sair do lugar comum com uma única obra fechada, muito bem desenvolvida em seus conflitos, além de colocá-la definitivamente entre as grandes autoras dessa nova década dos anos 2000.

Morte Súbita: Grande Livro!

PERSONAGENS

Não há como não associar a quantidade de personagens deste livro a mesma quantidade da série Harry Potter. Por outro lado, se na série do Bruxo, temíamos a morte daqueles mais carismáticos, J.K.Rowling não poupa ninguém em sua nova visão fictícia. Pessoas usam drogas, sim e isso é real. Adolescentes sofrem violência doméstica e sexual, sim, isso é real. Aos olhos de uma perspectiva mais simplória, seria resolvido com queixas ou perdão. O perdão até faz parte de um dos principais enredos, focado no garoto Andrew, por outro lado, é possível notar que o rancor é a principal motivação para que o silêncio e a resignação sejam o modo de vida mais acessível. Numa vizinhança cheia de peculiaridades, a fofoca, as intrigas, o desejo de uma vizinha pelo marido de outra, e a agressão do filho contra pais que não mereciam, tornam “Morte Súbita” uma obra muito relevante, abordando dentro destas pequenas fraquezas, questões mais sérias como preconceito racial e a vislumbrada e pouco tolerável classe média britânica – que obviamente não é uma regra, mas vindo de J.K.Rowling que sempre evidenciou a diferença entre o que é ser “um bruxo de sangue puro” ou um mero “trouxa”,  era esperado ser visto, já que seu país e histórico pessoal clamam para criticar essa terrível questão.

A única coisa da qual senti realmente falta neste novo livro, foi o desenvolvimento de algumas personagens e maior tempo nas questões de outros: o leitor perceberá que pela quantidade de tramas, naturalmente, as questões mais relevantes sobressaem sem maiores enrolações ou problemas.  Morte Súbita é um livro que recomendo, é um novo passo da J.K.Rowling rumo à maturidade de estilo e a consagração de uma autora que não mais precisa provar ou escrever, mas que por amor e dedicação ao seu público, decidiu ignorar o que já conquistou admitindo que com tal desafio, fez um bom trabalho!

Recomendo!

“Morte Súbita” (“The Casual Vacancy”)
Editora: Nova Fronteira.
Preço, 39,90 (www.submarino.com.br)

Impressões, Nota: 8,5.

Impressões – Cat Power: SUN

Olá leitores e leitoras do Conceitualidade! Depois de um longo período sem trazer novidades ou textos, retorno baseado no novo álbum da Cat Power, buscando inclusive a reinvenção do próprio blog!

 

Novo ar numa carreira excepcional.

Em Sun, a cantora de voz suave e de estrondoso sucesso graças a sua brilhante carreira e solidificada com seu último álbum “The Greatest” de 2006, retornou aos holofotes não com uma grande mudança em seu trabalho – que diga-se, continua ótimo – mas com uma pegada de elementos eletrônicos até então inéditos ao seu estilo acústico, soturno e emotivo. “Sun” abre com a belíssima faixa Cherokee, traduzindo um duplo sentido amoroso que remete aos problemas que a cantora teve em seu último “casamento”. O Álbum segue com a faixa homônima ao álbum, que lembra bastante o som do Depeche Mode no Álbum “Playing the Angel”. “Ruin” pode ser considerada a faixa mais desbocada da carreira da cantora, com um excelente trocadilho entre o que pode ser considerado “vadiação” e principalmente, indisposição pela quantidade de lugares no qual um indivíduo passa, conturbado e envolvido em sérios problemas. Em “Human Being” a cantora se aproxima um pouco do estilo das cantoras do Duo Coco-Rosie ou da também competente, Bat For Lashes.

Não se engane, por outro lado, pensando que o disco é totalmente alegre, a faixa “Nothin’ But Time”, sintetiza bem o sentimento “blue” que a própria capa do disco apresenta, apesar do arco-íris de novas ideias. O que considero  muito interessante nesse álbum é a mudança e a energizada que a cantora tomou, seja com sentimentos ainda mais ácidos ou com músicas muito enérgicas dentro do que é possível chamar de “enérgico” na vida de Cat Power e isso não era exatamente esperado na sua trajetória. Será muito bom que outros cantores e cantoras se inspirem no exemplo dessa grande artista para trazer um novo frescor à própria carreira, fugindo de armadilhas e repetições que vitimam, por exemplo, Alanis Morissette.

Faixas

01. Cherokee
02. Sun
03. Ruin
04. 3,6,9
05. Always on My Own
06. Real Life
07. Human Being
08. Manhattan
09. Silent Machine
10. Nothin But Time
11. Peace and Love

 

Coluna – Impressões – 8,5

Impressões – Grimes

Olá leitores e leitoras, tudo bem? Na coluna impressões, vocês poderão conhecer um pouco da cantora Grimes, que é sem dúvida a moça na foto acima (rs). Grimes está no patamar das cantoras que perpetua uma atraente estranheza vocal (como Kate Bush começou nos anos 80), além e pelos imensos ecos atmosféricos de suas trilhas e principalmente, pela capacidade de ter se tornado uma figura conhecida. Experimentalismo e criatividade são duas chaves presentes em suas canções.

Mercadologicamente ela é um desafio pois sua proposta é basicamente uma versão da “Björk” mais juvenil. Entretanto, ao contrário da veterana, com seu mais recente álbum, aproximou-se do público de maneira incisiva com seu já considerado hit “Oblivion”.  Se em “Vanessa” sua aparência remetia aos filmes do Tim Burton, com o contrato recém assinado sofreu modificações visíveis, mas jamais sem abandonar seu estilo soturno e porque não dizer misterioso. Se Björk no início dos anos 90 causou um estrondoso barulho pela maneira impressionante com a qual misturava ritmos diversos e que muitos julgavam “improvável” em termos de combinação, Grimes pode ser fruto dessa ousadia aparecendo no cenário POP atual como uma espécie de “Coringa”: não é o que se chama por aí de “Diva POP”, mas também não deixa de ser uma atraente recém formada celebridade.

Ao lado de iamamiwhoami (famosa por suas músicas sem “títulos” comuns e videos “surrealistas”) Claire Boucher – seu nome oficial – calibra a música pop com sonoridades que fogem da mesmice bate estaca que pode assombrar os ouvidos mais sensíveis. Nascida no Canadá, abriu a turnê 2011 da cantora Lykke Li em várias e bem sucedidas apresentações que a projetaram internacionalmente. Divulga seu mais recente Álbum “Visions” que pode ser definido (assim como seu título) como metafísico e bastante agradável.  A doçura e em certa medida infantil voz da cantora é o grande trufo de sua perspectiva artística, ao mesmo tempo que parece uma provocação: de maneira generalista, efeitos vocais são usados exaustivamente na música pop tornando praticamente impossível saber quem está cantado, no caso de Grimes, é possível entender a expressão de uma ideia bastante criativa a partir de seus sons e camadas melódicas.

Definir com argumentos muito diretos não faz jus ou tampouco respeita o trabalho que essa jovem e multi-instrumentista de 23 anos tem executado. Seu álbum está entre um dos melhores desse semestre apesar da já citada estranheza – o que é bom. A sensação de escapismo (mas jamais vulgar) também pode ser uma das razões pela procura e pelo interesse que seus fãs já entenderam como estilo da cantora. Levando em consideração a repetição de provocações desmedidas no cenário musical – de cantoras – Grimes está acima de qualquer discussão que a coloque no meio das já tradicionais “princesinhas” POP que surgiram na tentativa de superar o legado (imbatível) que Madonna ainda sustenta. Se boa parte das cantoras tentam parecer como a veterana do POP, em alguma bizarra comparação, Grimes é tal qual o Ray of Light: sereno, elegante e artisticamente compromissada com o que diz.

Coluna – Impressões – 8,5